Quando somos crianças, movidos pela curiosidade de um mundo inteiro novo e desconhecido, questionamos o porquê das coisas, ávidos por explicações. Muitas vezes, elas aparecem de um jeito não muito convincente e dadas de forma apressada. Depois que crescemos, uma verdadeira avalanche de regras e convenções, padrões e tabus, acabam moldando nossas escolhas e opiniões.
Pode parecer bobagem, mas vou dar um exemplo que é fato, corriqueiro e banalizado: a "lei", "convenção", "padrão" ou "tabu" sobre dois assuntos: homem grisalho é charmoso, bonito, e mulher grisalha é a "desleixada", envelhecida, ou como já cheguei a ouvir: " mulher de cabelo branco é a que não tem dinheiro para pintar". Ou outra máxima: mulher, a partir de uma determinada época, deve esconder a idade.
Em um tempo em que é falado aos quatro ventos que vivemos numa sociedade que valoriza a diversidade, o diferente, que respeita os direitos humanos, me pergunto porque ainda nos deparamos com coisas desse tipo. Todo respeito às mulheres que amam pintar as madeixas de loiro, ruivo, rosa, lilás, acho super lindo, e àquelas que não dizem quantos anos têm nem sob tortura mas, humildemente, não acho que deveria ser uma regra, algo imposto, forçado.
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| Até nas ilustrações, são mantidos estereótipos do homem elegante e da mulher esgotada e envelhecida |
Numa sociedade que já é tão cruel com as minorias ( que são, na verdade, maiorias), acredito que decretar uma ditadura de padrões é alimentar ainda mais estes estereótipos ultrapassados que só fazem oprimir ainda mais quem procura se amar do jeito que é, se aceitar, encontrar seu lugar no mundo.
Dia desses, no ônibus, vi uma mulher de cabelos um pouco abaixo do ombro, uma jovem senhora, morena e com belos fios brancos. sorridente e simpática. Não resisti e perguntei se era natural ou se ela tinha mandando pintar. Ela disse que até pintava os cabelos mas, como é alérgica, começou a evitar tinturas, nem mesmo as veganas funcionam para ela, confidenciou. Ela contou que, no começo, muita gente criticava, pegava no pé dela devido aos cabelos brancos até que ela parou de ligar para a opinião alheia e os assumiu de vez. Eu elogiei e disse que estava muito bonita e que aquele visual marcava seu lugar no mundo.
Sobre idade de mulher, sou da opinião de que não devemos esconder o tempo cronológico da nossa história. Num mundo que está envelhecendo cada vez mais, o certo seria valorizar quem tem uma vida mais cheia de quilômetros rodados, respeitar o que fizeram até agora e aproveitar a oportunidade do convívio para um aprendizado mútuo.
Já somos tão bombardeados por padrões de beleza que saem da cabeça sabe lá de quem, empurrados para um mundo mergulhado na conectividade extrema e absorvendo coisas nem sempre construtivas.
Ao invés de criticar ou caçoar dos cabelos brancos ou da idade de homens ( com bem menos frequência) e mulheres, que tal nos indignarmos e levantarmos a voz para os feminícios diários que ainda acontecem no nosso país. Fazermos nossa parte para que esta barbaridade não vire algo " comum" e " normal" nas nossas cidades. Mas sobre isso, vou falar em outro texto.
Um forte abraço!











