sábado, 21 de março de 2026

Convenções, padrões e tabus

Quando somos crianças, movidos pela curiosidade de um mundo inteiro novo e desconhecido, questionamos o porquê das coisas, ávidos por explicações.  Muitas vezes, elas aparecem de um jeito não muito convincente e dadas de forma apressada.  Depois que crescemos, uma verdadeira avalanche de regras e convenções, padrões e tabus, acabam moldando nossas escolhas e opiniões.

Pode parecer bobagem, mas vou dar um exemplo que é fato, corriqueiro e banalizado: a "lei", "convenção", "padrão" ou "tabu" sobre dois assuntos: homem grisalho é charmoso, bonito, e mulher grisalha é a "desleixada", envelhecida, ou como já cheguei a ouvir: " mulher de cabelo branco é a que não tem dinheiro para pintar". Ou outra máxima: mulher, a partir de uma determinada época, deve esconder a idade.

Em um tempo em que é falado aos quatro ventos que vivemos numa sociedade que valoriza a diversidade, o diferente, que respeita os direitos humanos, me pergunto porque ainda nos deparamos com coisas desse tipo. Todo respeito às mulheres que amam pintar as madeixas de loiro, ruivo, rosa, lilás, acho super lindo, e àquelas que não dizem quantos anos têm nem sob tortura mas, humildemente, não acho que deveria ser uma regra, algo imposto, forçado.


Até nas ilustrações, são mantidos estereótipos do homem elegante e da mulher esgotada e envelhecida


Numa sociedade que já é tão cruel com as minorias ( que são, na verdade, maiorias), acredito que decretar uma ditadura de padrões é alimentar ainda mais estes estereótipos ultrapassados que só fazem oprimir ainda mais quem procura se amar do jeito que é, se aceitar, encontrar seu lugar no mundo.

Dia desses, no ônibus, vi uma mulher de cabelos um pouco abaixo do ombro, uma jovem senhora, morena e com belos fios brancos. sorridente e simpática. Não resisti e perguntei se era natural ou se ela tinha mandando pintar. Ela disse que até pintava os cabelos mas, como é alérgica, começou a evitar tinturas, nem mesmo as veganas funcionam para ela, confidenciou. Ela contou que, no começo, muita gente criticava, pegava no pé dela devido aos cabelos brancos até que ela parou de ligar para a opinião alheia e os assumiu de vez.  Eu elogiei e disse que estava muito bonita e que aquele visual marcava seu lugar no mundo.

Sobre idade de mulher, sou da opinião de que não devemos esconder o tempo cronológico da nossa história. Num mundo que está envelhecendo cada vez mais, o certo seria valorizar quem tem uma vida mais cheia de quilômetros rodados, respeitar o que fizeram até agora e aproveitar a oportunidade do convívio para um aprendizado mútuo. 

Já somos tão bombardeados por padrões de beleza que saem da cabeça sabe lá de quem, empurrados para um mundo mergulhado na conectividade extrema e absorvendo coisas nem sempre construtivas. 

Ao invés de criticar ou caçoar dos cabelos brancos ou da idade de homens ( com bem menos frequência) e mulheres, que tal nos indignarmos e levantarmos a voz para os feminícios diários que ainda acontecem no nosso país. Fazermos nossa parte para que esta barbaridade não vire algo " comum" e " normal" nas nossas cidades. Mas sobre isso, vou falar em outro texto.

Um forte abraço!

domingo, 1 de março de 2026

Abundância e escassez

 Faz tempo que não publico nada por aqui, mas hoje, primeiro dia do mês de março, mês do meu aniversário, resolvi confabular com meus leitores, na pretensão esperançosa de que alguém vá ler estas mal traçadas linhas, mas, vamos lá!

Veio à mente um tema: abundância e escassez, algo como tudo na vida, na sua duplicidade: claro e escuro, bem e mal, bom e ruim , alto e baixo...Olho primeiro para o mundo: tanta abundância tecnológica, de recursos naturais ( que em alguns locais, já não estão mais tão abundantes assim), abundância de seres viventes, de riquezas ainda desconhecidas e não exploradas....E, ao mesmo tempo, tanta escassez! Escassez de humanidade, de bom senso e compaixão, escassez de sanidade e boa vontade. 

Quando vejo as notícias intermináveis das guerras grandes ( sem falar naquelas mais territoriais das quais nem temos conhecimento), me pergunto: será que isso não vai terminar nunca? As chamadas lideranças mundiais numa avalanche de discursos pela "paz" promovendo ataques , bombardeios, ações militares que atingem na maior parte, a população civil, pessoas que ficam " entre a cruz e a caldeirinha" como dizem, tentando apenas sobreviver.  Lembro de Gaza, do povo tendo que ir de um lado para o outro, as imagens chocantes de uma multidão de famintos atrás de uma espécie de sopa rala para matar a fome, um desespero de mãos e vasilhas na disputa por algo que se aproxima muito pouco de uma refeição decente. E a cidade destruída? Para onde voltar, onde morar?



Em outra guerra midiática, a entre Rússia e Ucrânia, o mesmo drama de bombardeios, pessoas feridas, pessoas mortas, e uma insistência irritante de um país querer tomar " na marra", áreas de outra nação, uma disputa territorial que parece estar ainda distante de ser encerrada.

Abundância e escassez...Abundância de arrogância de quem dá as ordens e sela destinos de milhares? Escassez que marca um dia após o outro dos cidadãos que tentam retomar a rotina em meio a tanta dor e violência. 

E agora, em mais uma das teatrais e bizarras decisões do presidente americano, o Irã, atacado por Estados Unidos e Israel, mais um conflito para um mundo cada vez mais dividido e fragmentado. Por que penalizar quem não tem nada a ver com as disputas por riquezas e poderio nuclear? Por quanto tempo vamos assistir, atônitos, a essas cenas terríveis?

Abundância e escassez também presentes na tragédia da zona da mata mineira, com quase 70 mortos e cidades devastadas pela força das águas e pela incompetência de gestores que não fazem o mínimo, o dever de casa, a escassez de ações que, de fato, evitem que o drama visto esses dias em Minas Gerais, se repita. 



A abundância da solidariedade neste desastre, de pessoas que ajudaram desconhecidos, numa corrente de amor e empatia é o que ainda traz um fio frágil de esperança de que talvez, um dia, aprendamos a nos preocupar mais com o todo e não apenas com a nossa parte.